Domingo 26, Xuño 2022

LM+3

Joseph Ghanime

O escritor libanês Amin Maalouf recomenda LM+2 para o ensino de línguas na Europa:

LM+2 = Língua materna + 1 Língua de comunicação internacional + 1 Língua de preferência pessoal.

A fórmula combina o critério quantitativo da extensão – língua de comunicação internacional – com o qualitativo da aposta na diversidade linguística – língua de preferência pessoal ou adoção. Pragmatismo e a ecologia linguística vão de mãos dadas nesse desafio.

Cumpre defender o pequeno e fragilizado, agora que um novo totalitarismo alevanta as orelhas por trás dos ecrãs da TVs.

Fai todo o sentido que línguas como o cornualhês ganhem falantes depois de terem sido dadas por mortas. As línguas são entes culturais condicionados polas relações de poder nas sociedades humanas. O linguicídio é um assassínio cultural, não um processo natural e biológico, como preconizam todos os imperialistas. Ainda bem que, ao contrário dos sapos, algumas línguas sim conseguem regressar do além.

Se a nossa língua fosse falada apenas por duas ou três pessoas, haveria que defendê-la com unhas e dentes.

No entanto, todavia, contudo, porém:

Esta que nasceu entre Lugo e Braga supera os duzentos e quarenta milhões de falantes. A língua própria da Galiza é uma LM internacional – se nós queremos que o seja. Para que a fórmula dê certa só temos de deitar no mesmo tubo de ensaio as variedades a norte e sul do Minho, a leste e oeste do Atlántico.

Voltemos então às contas de Maalouf, adaptadas agora ao nosso caso particular:

LM Internacional (galego-português) + Língua internacional (castelhano) + Língua internacional + Língua de preferência = LM + 3.

Eis a vantagem geolinguística dos galegos: com o mesmo esforço que outros o LM+2, nós atingíamos o LM+3.

Daquela, ancorados nesse desejo e propulsados nessa esperança:

Cumpre aproximar a variedade galega do tronco comum luso-brasileiro, estendendo o ensino do português, incluindo a lusofonia no ensino do galego, incrementando laços culturais e aceitando a ortografia comum como opção legítima na Galiza.

Cumpre alargar o abano de línguas estrangeiras de comunicação internacional, para além da fórmula inglês + francês, alemão, italiano (as línguas da Suíça?). Porque não também russo, árabe, chinês? O mundo não acaba na Europa ocidental e nos EUA.

E cumpre, ainda, apimentar a fórmula com línguas de adoção ou preferência pessoal: línguas eslavas, célticas, escandinavas, basco, catalão, línguas de migrantes que estão a trabalhar na Galiza (romeno, berbere, cabo-verdiano, quéchua, etc.) –- ou até esperanto, língua franca contra a guerra e o imperialismo cultural.

Às portas deste novo totalitarismo de banda larga, o que fai falta é agitar os tentáculos da resistência cultural: com um olho virado para o extenso e amplo – e outro para o intenso e miudinho.

E navegar já com esse astrolábio, sem pedir autorização a nenhum governo ou Conselharia.

LM + 3 = Língua mãe + cachelos de autoestima e confiança + tentáculos de propulsão e amplidão + pimentão de amor ao pequeno.

(Veja-se o relatório A Rewarding Challenge, de Amin Maalouf, em http://ec.europa.eu/languages/documents/report_en.pdf)


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