Domingo 4, Decembro 2022
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Amizades e cumplicidades

Joseph Ghamine

A 7 de setembro Espanha jogará com a Arábia Saudita em Ponte Vedra. O evento inscreve-se na aliança política, comercial e militar entre os dous reinos.

Em janeiro de 2012, Espanha e a Arábia Saudita assinárom um contrato para a construção do trem de alta velocidade entre a Meca e Medina. O projeto foi avaliado em 6736 milhões de euros.

O governo está a fazer tudo o possível para vender entre 200 e 270 tanques Leopard à Arábia – 3000 milhões de euros. O Real Decreto Lei 19/2012 permitirá ao Ministério da Guerra realizar contratos de exportação diretamente com um governo estrangeiro. O regime espanhol vê na exportação de armamento uma aposta estratégica.

Mas o desporto não deve ser refém da política – dirão alguns.

E não lhes falta razão. Se os estados com práticas criminosas fossem excluídos de eventos desportivos internacionais, simplesmente não haveria Mundiais nem Olimpíadas. Só a Ilha de São Brandão e a República de Trentidão teriam legitimidade para participar.

Porém, o desporto sim tem sido refém da política.

Por exemplo, líderes europeus recusárom comparecer na Campeonato Europeu de Futebol da Ucránia em protesto polo encarceramento de Iulia Timochenko – supostamente o boicote foi em termos de defesa dos direitos humanos.

Que a Espanha não é campeã em DD.HH., todos sabemos. Mas a Arábia Saudita bate recordes. A Arábia é uma monarquia absoluta, onde o rei é chefe de estado e do governo. Pena capital e castigos corporais são prescritos para diversos crimes. As mulheres tenhem direitos equiparáveis aos das crianças, e os dos trabalhadores migrantes aproximam-se da servidão – a escravatura só foi abolida em 1962.

Em política internacional, a Arábia Saudita e o Catar fornecem apoio económico e militar aos mercenários do Exército Livre da Síria, perpetradores de ataques terroristas para desestabilizar essa república árabe. A Qatar Foundation, criada polo Emir do Catar, patrocina o FC Barcelona – a equipa com maior representação de jogadores na seleção espanhola.

No jogo amigável Espanha – Arábia Saudita de Passarom transparecerá a simpatia das entidades organizadoras por um aliado militar que pratica o terrorismo de estado. Uma marcha militar com tanques Leopard e um polvo à feira ensopado em petróleo seriam o tempero perfeito para esta grande festa.

Entretanto, há desacordo entre a Deputação de Ponte Vedra e o Concelho sobre o andamento das obras na zona do estádio. O Concelho, porém, manifestou que fará tudo o possível para avançar com os trabalhos. 1,7 milhões de euros terão de ser pagos em termos de expropriação da zona adjacente (Faro de Vigo, 3 de julho).

Ignoro se o Concelho de Ponte Vedra dispõe dos meios necessários para impedir a realização do jogo. Se não for assim, cumpre, polo menos, uma declaração pública de repúdio, em termos da dimensão política do evento – e não apenas dos detalhes que dim respeito ao uso do estádio.

Um posicionamento inequívoco neste sentido honrará ao Presidente da Câmara de Pontevedra, na qualidade de homem antiimperialista e de esquerda.

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