Domingo 4, Decembro 2022
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Á espera de movimento

Joseph Ghamine

A vida é feita de nadas – dizia o Miguel Torga.

Junho é feito de exames de classificação e certificação nas escolas oficiais de idiomas.

Classificar e certificar alunos com notas de 0 a 25 prejudica a plenitude da primavera. Ainda bem que da janela se enxergam os Ancares.

Distribuo os exames e as folhas de rascunho. Começam a escrever e achego-me à janela. A vida é feita de nadas, de grandes serras paradas.

Mas da montanha também ressoam alguns ventos.

Recebim há pouco um exemplar da revista Sendiñela, do CPI de Návia Suarna. Nessa escola, cada trimestre do ano académico foi dedicado a uma cultura diferente – Marrocos, os países lusófonos e a Catalunha. Figérom obradoiros de todos os temas imagináveis e intercámbios com outros centros. Publicárom dous livros de etnografia e um de literatura oral.

Todo um exemplo de pluriculturalismo e excelência – desse tipo excelência que o ministro Wert não contemplará na próxima reforma educativa.

Pois o que se projeta para a montanha é uma política de discriminação preferente: liquida-se o programa do Preescolar na Casa, encerram-se escolas e enviam os miúdos para as vilas. Anuncia-se que os centros escolares de Samos e Cervantes ficarão com apenas dous docentes.

Para enfrentar esta desfeita, uma marcha foi convocada polos de Cervantes, as Nogais, Samos, o Íncio e Návia. No dia 14 de julho, quantos autocarros partirão de Compostela, Corunha ou Vigo para apoiar o protesto?

O encerramento das escolas da montanha conduz à liquidação da língua e dos usos e costumes que sustentam o seu imaginário. Nessas terras altas joga-se o futuro do idioma – tanto ou mais do que na praça do Obradoiro ou da Quintana.

Pois não há deus que arranje um país de abusadores de montes.

Damos as costas às montanhas como nenhum povo da antiguidade deu. Lembramo-nos delas para explorar-lhes os ventos – veja-se o monte sagrado do Seixo, na Terra de Montes – ou para evocá-las na qualidade de redutos de bucolismo – veja-se o nosso Courel imaginário. Raramente concebemos a montanha e os/as da montanha como sujeitos ativos no território, transmissores e criadores de cultura, de conhecimento, de sentido.

O geógrafo Eliseu Reclus já preveniu no século XIX contra a arrogância de prescindir dos montes em nome do progresso. Imaginou que cumpriria o silêncio das serras para sossegar do ruge-ruge dos meios de comunicação; o relevo escarpado para fugir aos perigos de uma vida cómoda demais; e os usos e costumes comunais para reinventar o jeito independente e libertário que nos montes ainda ressoa.

Que ressoa cada vez mais de mansinho, agora que este exame está a piques de acabar.

Uma estudante pede-me uma folha mais de rascunho. Dou-lha, tão branca que me traz saudades das cristas dos Ancares em fevereiro. Era bom que ela escrevesse na corda da serra, sem limite de palavras, numa língua impossível de classificar e certificar.

E que fôssemos avaliados, todos nós, com valores do 0 ao 25, por um júri feito dos cumes desses Ancares acolá ao fundo.

Que a vida anda feita de nadas – de grandes serras desempregadas, à espera de movimento.

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