Sábado 8, Agosto 2020
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FRANKESTINAS QUE SOMOS NOSOUTRAS

NARRATIVA
Os corpos invisibles, Emma Pedreira. Xerais, 2019. 208 páxs.

 

por Susana Sanches Arins

Prometeu e Pandora são duas personagens ligadas polo tenso fio da ira dos deuses. Prometeu teve piedade dos humanos. Foi essa a sua ofensa. Escutar o clamor da injustiça e reagir. Subiu ao Monte Olimpo, roubou o lume, e mostrou às simples mortais a técnica de fazer isca com uma pedra, com dous garabulhos. Fora a magia. Fora o medo e o temor. Fora a necessidade do rezo, da oferenda, do sacrifício.

Enorme foi o castigo. Se queres conhecer, se queres a técnica e a sabedoria, hás sofrer. Encadearam os deuses o traidor e ordenaram à águia dos altos cúmios petiscar em vivo o fígado do desgraçado. Porque Prometeu era imortal. A seguridade de que há sobreviver à tortura. A seguridade de que no nascer de um novo dia, novamente virá a águia e novamente a dor insuportável.

Enorme foi o castigo. E duplo. Necessário era recuperar a magia. Necessários o medo e o temor e o rezo e a oferenda e o sacrifício. E nasceram os deuses Pandora. E foi enviada, formosa e sedutora, às portas de Epimeteu, irmão do deus ladrão. E apaixonou-se o Epimeteu e falou à rapariga e beilaram na festa e houve casamento. E presente de vodas. Maravilhosa ânfora com uma condição estranha: nunca a abras. Já sabemos. Pandora abriu. Condenada curiosidade. E os males do mundo foram libertados e de volta a magia o medo o terror.

Desde há dous mil e quinhentos anos a aprendermos que o conhecimento é doloroso e a curiosidade um perigo. Não (te) perguntes, não (te) questiones. Provocarás a ira de quem tenha o poder. Castigarás com a tua ousadia a toda a comunidade.

A dor e o perigo: aquilo que nos gravaram a lume, os deuses, às pandoras que no mundo somos. Por isso adoramos L.C. e Prometea Stoner. As duas curiosas, as duas a defrontarem perigos e superar obstáculos, as duas unidas para rebentarem o olimpo dos poderes que pretendem estruchá-las em espartilhos de varas. As duas a ligarem-se na sedosa gineologia daquelas que antes reptaram os deuses, através das cartas de Prometea a Mary, do talismã que é roubo, que é pedra.

L.C. é meninha operária, escravizada entre operárias escravizadas. As casualidades da vida e a raridade devezada levam-na às portas da casa Stoner, onde conhece Prometea. Prometea é uma doutora frankenstina submersa no estudo, na ânsia de conhecimento e na auto-experimentação. Mary Shelley constrói no século XIX o seu Frankestein como uma ficção científica, para reflexionarmos sobre se os homens podem ocupar o lugar dos deuses e governar as suas vidas, as suas mortes. Emma Pedreira constrói as suas Frankestinas como uma fantasia ambientada no século XIX, para reflexionarmos sobre se as mulheres podemos ocupar o lugar dos homens e governarmos os nossos corpos, as nossas vidas. Damos com duas mulheres que escutam o clamor da injustiça e reagem. Não. Desculpai. Vivem a injustiça nas suas carnes e reagem. Pedreira liga-nos a elas,  animando-nos à luita, com o sedoso e lírico fio das palavras.

Porque o conhecimento é gozoso e a curiosidade libertadora.

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