Luns 3, Agosto 2020
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O NOME EXTREMO DE XINA VEGA

NARRATIVA
Rexina Vega. Ninguén dorme. Laiovento, 2019

 

por Teresa Moure

Vou referir-me a este romance como ND. Existem outras causas para o acrónimo, mas agora apenas me interessa a sua etimologia, do grego ákros, extremo, e ónoma, nome. E ND, de Xina Vega, tenta nomear o extremo. O estilo é contundente; a temática selvagem; estamos perante um romance fora de géneros e de modas, que teima em tirar à luz algo turbo, pavoroso. Ao passarmos as páginas, sentimos como se o papel tivesse dentes. ND corta e corta-nos. Por dentro.  

As personagens habitam a mais absoluta solidão. Não importa se estabelecem algum tipo de relacionamento − uma conversa, sexo −; neste universo claustrofóbico comunicar com o outro é uma ilusão. Apenas é possível penetrar e ser penetrado durante um instante, sem sonhos de permanência. Ela e ele, sem nomes, fazem contacto  por terem coincidido num mesmo espaço. Sem vontade, sem sentimentos nem escolhas. Porém, a intimidade nunca é permitida – talvez porque exija alguma energia. Ela vem de fechar uma porta de entrada no mundo a outro serChegaportanto, dum território onde o nãoser foi verdade; é uma fêmea dominada por hormonas que mal pode tornar-se em amante. Carrega com o seu passado acima. Só o bom ofício da autora pode conseguir narrar aí, num espaço devastado 

palavra sangue aparece muitas vezes – contei 17 e talvez me escapasse ainda alguma. Stoda reiteração significa, esta tão voluntária, sem um assassino em série que a justifiquetem de ser um manifesto. A autora quer obrigar-nos a olhar para o fluido menstrual, o mesmo que percorre as vísceras, que mana das feridas na violência e que põe tesos os pénis. Sempre o mesmo sangue.  

Xina Vega delicia-se nos fluidos e nos pormenores da existência, no obsceno e na sua textura viscosa, prodigando à descrição do feio uma desmesurada atenção de calígrafa. ND poderia ser literatura forense  sempre que o tal género fosse consideradartístico. As personagens são apenas corpos despidos sobre a mesa e a autora entrega-se a uma autopsia assética e desapaixonada. Se não detestasse eu as etiquetas todas e em particular as que usamos nas nossas práticas leitoras, diria mesmo que faz um exercício de Dirty realism, embora a sua visão do mundo lembre mais Carson Mccullers que os exemplos clássicos do género, do tipo de Bukowsky. Todo o relato mantém incólume um bramido feroz, dorido; um bramido que é coletivo, mas que se percebe em imagens concretas, como a dessa voz que apela o homem para a violentar com a sua força, para a castigar. Sobre o interesse forense pelas causas do deterioramento edifica-se um relato despudorado, às vezes violento, sempre nutrício e trespassado de referências literárias. Os forenses amam o detalhe: lá é que trabalham.  

ND é um romance profundo e desgarrado que narra, com as tripas na mão, a angústia do tempo, porque as personagens parecem exageradamente atormentadas pela idade e procuram um refugio efémero nos sentidos  nesse inquietante aroma a magnólia, galão de noite, jacarandá, cravo e canela.  

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